sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Escombros



Escombros - Carla Luz

Aqueles teus olhos de mel
ainda me encantam.
Eu me assombro com aquilo que você se transformou.
Eu tinha tudo para ser sua.
O filho que você teve
era pra ser nosso!
Aqueles sorrisos nas fotografias
eram pra ser por mim,
por nós!
Mas você foi embora
como água escorrendo das mãos...
Meu primeiro amor
nunca nem reparou nos meus olhos verdes
molhados de mar...
Sofri.
Foi aquele vento que passou,
derrubou tudo,
levou embora qualquer coisa...
E o que ficou
foram escombros de mim.
Meu coração nunca se recuperou.
Eu fui estuprada pelo amor...
E foi tão cedo,
e foi tão violento...
Nunca mais me refiz...


(Esse eu posso dar "nome aos bois" - Para Felipe... que há 26 anos atrás foi meu primeiro amor...)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Feliz Dia do Poeta


Fala aí, malandragem!
Demorô, parcêro.
Pego o microfone 
Só pra te dizer
Hoje é dia de poeta,
Poeta eu quero ser.
Por enquanto tenho blog,
Até que é legal.
Sou a desconhecida
Amanhã na Bienal.
Faço verso todo dia
Com a praia ou sem calor.
Desembucho cada coisa
Falo muito de amor.
Vou terminando aqui
Pra você não esquecê
Quando eu for na Bienal 
Autografo pra você.
 - Carla Luz

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Você não sente?
A chibatada verbal
no lombo do negro
que ainda hoje sofre
por ter cor?
Você não vê?
Sumir o vermelho
no capitalismo das cores,
sem traços, sem folclore
das nossas estórias,
perder sua história,
e com ela, seu chão?
Cantar seu canto,
perceber-se mudo
na história do mundo
onde seu povo não vingou?
Como não perceber
que engaiolaram o amor
num rótulo medieval
declamando-se antinatural
apaixonar-se por um outro ser?
Por quê?!
Eu sinto no peito a força da cor.
Eu vivo histórias vermelhas de pele,
descalças, peladas, na mata de dentro.
Minha escrita vem dos ancestrais.
Eu sinto amor e não quero rótulos,
não quero padrões,
não quero caixotes sexuais,
fechados em blocos de concretos
que se dizem sentimentais!
Eu só queria ver e ouvir
a luta da igualdade.
Não do branco com o negro.
Não do índio com o estrangeiro.
Não dos homens com outros homens.
Mas há que o negro gritar!
Mas há que o índio apitar!
Mas há que o homem amar!
O mundo negou-lhe história,
se você não se lembra...

O meu peito bate tupi,
o meu sangue tem cor,
seja ela qual for.
E o meu sexo geme de amor,
seja ele como for.

Podem calar o corpo.
Na chibata.
No tiro.
Na mudança da língua.
Mas a história permanece.
O poema continua para sempre.

Para sempre.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

À poesia


O mundo são palavras.
Elas saltam
e as capturo.
Ponho-nas ao papel.
Pinto em versos
o que me lagrimeja
ou me ri.
O mundo são palavras
que se abrem para mim.
O mundo desabrocha
à poesia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O trabalho dignifica o homem?

Se o trabalho dignifica o homem,
por onde ele anda?
domina
escraviza
apaga
substitui
amansa
domestica
verdadetiza
Prazeres trocados.
Quem é?
. . .
Quem tem?
Muito.
Lâmpadas pelas estrelas
Conversa pelo Iphone
Onze meses por um.
Conhecimento por diplomas.

Se o trabalho dignifica o homem,
por onde ela anda?
dormir, acordar, café, banho, escovar os dentes, chave, porta, rua, ônibus, suor, metrô, horário, sentar, relatório, café, digitar, distrair, digitar, almoço, sono, digitar, café, fingir, alívio, metrô suor, ônibus, rua, porta, chave, jantar, banho, novela, dormir. 
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Se o trabalho dignifica o homem,
por onde você anda?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Tem dias que a solidão pesa
e senta ao seu lado para conversar.
Vai lembrando os vazios da vida
e o quanto você não está.
Não está junto.
Não é par,
não é plural;
a solidão te lembra
que você é ímpar no singular
Cadê aquele cara que vai causar frisson?
Que vai chegar na cara dura,
olhar indesviável,
e ficar para sempre?
Cadê aquele "sexo oposto"
do que do oposto que dizem,
vai mudar a minha incredulidade?
Cadê aquele que vai pulverizar minha vida
de alegria conjunta em noites sem lua?
Por onde anda o sorriso só meu,
um olhar caliente que possua o meu?
Por onde anda esse outro
que procura por mim?
Alguém procura por mim?

Por mais que eu diga "não!",
na verdade, é um grito rouco de "cadê você?".

Não sou infeliz sozinha. Não sou.
Só não sou completamente feliz só

domingo, 31 de agosto de 2014

Poesia Erótico-Verbal


Pela aquela frase enorme
e despe-a.
Vai tirando toda a roupa
adjetival, pronominal...
E deixa a raiz da palavra,
pelada,
sagrada,
virginal.
Chupa os pingos dos "is",
coloque o dedo nas vírgulas,
essas desavergonhadas frasais,
que separam as coisas certas,
fazem pausas para o nosso fôlego, ah!
Despiu?
Agora veste de metáforas,
cobre-as de analogia,
fantasia qualquer coisa
para o gozo dos olhos.
Pega forte a ideia,
joga no papel a bendita,
massageia os elogios,
adjetivos, numerais, pronominais, ocultos, implícitos,
substantivados, regulares, reduzidos, metafóricos,
pronominais, vocacionais,
Dê-me, me dê, me dê, dê, dê, dêêê!
Agora pausa no ponto parágrafo.
Respiração numeralmente longa
pelo gozo verbalístico.
Um sorriso adverbial na cara...
Não disfarça! Todo mundo já percebeu;
você fez sexo com as palavras.

sábado, 30 de agosto de 2014

Amor,
se você chegar
dá pra arrombar a porta?
Eu tranquei por dentro
e joguei a chave fora!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Olha uma estrela
no azul do céu.
Tá ficando escuro
do jeito que é bom olhar.
Tem estrela pipocando
por um mar azul invertido.
Do jeito que eu gosto
Do jeito que é bom olhar...
De azul ao preto
e depois ao clarear...
Se o sono não me rendesse
passava a noite acordada
só para contar
todas as estrelinhas
que nascem nas costas do céu.
Mas o sono me vence
e eu as conto no sonho.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Rendição



Amar é sofrer
e escrever é amar.
Tenho medo de amar,
por isso tenho
deixado de escrever.

Se o poema me obrigar
renderei-me sem lutar
ao algoz verbalizado,
ritimado
pela luz que enxergo
em ti ao teu
retumbante sorriso em mim.

Ó, sina cruel
de quem derrama versos
em lágrimas
de amor!
Por quê, ó Deus,
fazes isso comigo?
Por que não consigo ser
como todo mundo,
normal,
casual,
trivial?
Tenho que ser assim...
tão anormal?

Mas se o verbo me render
apontando suas armas
pontiagudas
e ferinas
como brilhos e sorrisos,
gargalhadas e suspiros,
como resistir?
Darei tudo o que tenho.
Verbo, versos,
palpitações
e dilacerações cardíacas.
Tudo fruto de uma
esperança
chamada Amor.

Saudades do céu e um pedido de piedade


Passarinho na gaiola
é de partir o coração.
Seu canto sofrido,
olhos lacrimejando
liberdade...
Saudades do céu.
Preso,
partido,
ferido
no seu sonho
infinito
de abrir asas e voar.
Não confio
em quem prende passarinho.
Seu canto entre grades
é gemido.

 

Quem dera eu pudesse
arrebentar as prisões,
os grilhões
e fazer dos pássaros
nuvens,
sonhos,
asas libertas!
Quem dera...
a alforria dos bichos!

 

Pássaros,
desculpem a minha raça
insana,
desumana
e burra
que rouba teu céu
pelo teu lamento em canto.
Que o Deus-Passarinho
tenha piedade de nós.