sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu vivo no limiar do desespero.
Tua lembrança é o abismo
que tento não olhar, 
mas causa vertigem.
Repito pra mim mesma
que já vai acabar
e prossigo andando
nessa corda bamba
de ser poeta.
Carla Luz - 17/01/2015

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cosquinha

Eu não vou dar o braço a torcer.
Eu posso estar um caco de vidro
de casa de pobre no muro
pra bandido de meia tigela não entrar,
mas você
não
vai
ver.
Eu vou rir, eu vou gargalhar,
vou passar na sua frente sambando,
sou distribuir abraços e risos
até que o meu choro interno
passe de verdade a mito
e você não seja mais que
uma lembrança esquecida
que não faz nem cosquinha

sábado, 10 de janeiro de 2015

Pontuação

Se eu te dei o conectivo
e você colocou reticências,
eu apago dois pontinhos
deixando um deles como ponto final.
Não dá pra frasear significativamente
com quem deixa sentenças abertas.
Eu não tô aqui pra entrelinhas,meu bem.
Diga sem metáforas ou metonímias.
Seja claro, direto
e principalmente afirmativo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Oração do Caboclo

Eu tinha pensadu num puema bunito que só.
Tinha umas palavra difírci de falá,
tinha umas linguage que nem eu sei dizê.
Mas o caboclim aqui num é estudado,
mal sabi lê, mal sabi conta,
o qui eu ia fazê?
Dicidi dizer só o que vinha do meu coração mermo.
Aquela indiazinha dos cabelo liso,
com aquela boquinha de beiju,
com aqueles peitinho
que cabi certinho
nas parma da minhas mão.
Ah! Deus! Não me tire a indiazinha, não
que eu morro, viu?
E não me tira aquele riacho que a gente se banha,
aquela floresta que eu respiru verdi.
Não me tira minha mãezinha
também não, viu?
Nem me tira a pinga pra mode abri o apititi,
que eu não sô santo, né?
Mas si o sinhô puder,
me dá um pouco daquela fé
que eu perdi
lá na estrada.
Quando meu pai foi se incontra com o sinhô...
Ele foi e levô minha fé imbora...
Peçu só isso, meu Deus.
Não me tire meus momento de riso,
me dá aquele punhadinho de fé
pra me aguentá nesse mundo
que tira lágrima vez por ôtra.
Vamos cumbiná assim...
Deixa quatro coisa que eu fico sartisfeito:
minha mãe, minha fé, minha pinga
e minha índia o ano intêro!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Eu não te amo desse jeito,
como quem bebe água depois do deserto.
Isso é paixão.
Quando se bebe, acaba a sede.
Nem como o alimento do faminto.
Isso é saciar o desespero.
Eu vou te amar,
quando o pássaro cantar
e o arco íris aparecer.
Natural, visceral, humano
e independente.
Eu não quero depender de você para ser feliz.
E eu não vou, moreno.
Eu já sou feliz assim,
só.
Eu vou te amar quando
assistir comédia juntos
me fará rir de alegria.
Quando meus olhos
te fitarem com mansidão,
como aquele lago parado
refletindo o mundo, sabe?
Eu vou te amar
quando você olhar para uma criança e pensar em nós.
Quando a minha piada sem graça
te fizer rir,
nem que seja só por ser sem graça.
Eu só vou te amar
quando sentir que é igual.
Sem reciprocidade,
nunca mais.
Por enquanto eu fico no sonho,
no desejo,
no pensamento, moreno.
Quem sabe um dia os céus resolvam
misturar os signos do zodíaco?
Quem sabe nesse dia fatídico
eu me abra.
Quem sabe nesse dia eu te ame...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Gente de Sorte

Tem gente que tem sorte. 
Arruma dois namorados
(E com carro! ), 
Estágio, viagem, dinheiro.
Emprego! 
Tem gente que nasce
com a bunda virada pra Lua. 
Que tem o número da sorte, 
paraíso astral, 
abre caminhos nos búzios, 
carta boa da cigana, 
linha da vida da mão tão grande
que vai até o pé. 
Não pisca em foto, 
nem tem cárie no dente.
Chega no ônibus e consegue lugar, 
num sorteio é o primeiro a ganhar.
Algumas pessoas nascem
com as bênçãos dos deuses. 
Gregos, romanos ou hindus. 
O restante do mundo
tá solteiro, no vermelho, 
no trem vai sempre em pé. 
Até entra com pé direito, 
mas sempre cheio de chulé. 
Se tiver sorteio, 
não acerta nada, 
não ganha nem uma bala. 
Eu até queria escrever mais, 
mas o trem tá lotado 
e tem alguém suado
querendo logo passar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Escombros



Escombros - Carla Luz

Aqueles teus olhos de mel
ainda me encantam.
Eu me assombro com aquilo que você se transformou.
Eu tinha tudo para ser sua.
O filho que você teve
era pra ser nosso!
Aqueles sorrisos nas fotografias
eram pra ser por mim,
por nós!
Mas você foi embora
como água escorrendo das mãos...
Meu primeiro amor
nunca nem reparou nos meus olhos verdes
molhados de mar...
Sofri.
Foi aquele vento que passou,
derrubou tudo,
levou embora qualquer coisa...
E o que ficou
foram escombros de mim.
Meu coração nunca se recuperou.
Eu fui estuprada pelo amor...
E foi tão cedo,
e foi tão violento...
Nunca mais me refiz...


(Esse eu posso dar "nome aos bois" - Para Felipe... que há 26 anos atrás foi meu primeiro amor...)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Feliz Dia do Poeta


Fala aí, malandragem!
Demorô, parcêro.
Pego o microfone 
Só pra te dizer
Hoje é dia de poeta,
Poeta eu quero ser.
Por enquanto tenho blog,
Até que é legal.
Sou a desconhecida
Amanhã na Bienal.
Faço verso todo dia
Com a praia ou sem calor.
Desembucho cada coisa
Falo muito de amor.
Vou terminando aqui
Pra você não esquecê
Quando eu for na Bienal 
Autografo pra você.
 - Carla Luz

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Você não sente?
A chibatada verbal
no lombo do negro
que ainda hoje sofre
por ter cor?
Você não vê?
Sumir o vermelho
no capitalismo das cores,
sem traços, sem folclore
das nossas estórias,
perder sua história,
e com ela, seu chão?
Cantar seu canto,
perceber-se mudo
na história do mundo
onde seu povo não vingou?
Como não perceber
que engaiolaram o amor
num rótulo medieval
declamando-se antinatural
apaixonar-se por um outro ser?
Por quê?!
Eu sinto no peito a força da cor.
Eu vivo histórias vermelhas de pele,
descalças, peladas, na mata de dentro.
Minha escrita vem dos ancestrais.
Eu sinto amor e não quero rótulos,
não quero padrões,
não quero caixotes sexuais,
fechados em blocos de concretos
que se dizem sentimentais!
Eu só queria ver e ouvir
a luta da igualdade.
Não do branco com o negro.
Não do índio com o estrangeiro.
Não dos homens com outros homens.
Mas há que o negro gritar!
Mas há que o índio apitar!
Mas há que o homem amar!
O mundo negou-lhe história,
se você não se lembra...

O meu peito bate tupi,
o meu sangue tem cor,
seja ela qual for.
E o meu sexo geme de amor,
seja ele como for.

Podem calar o corpo.
Na chibata.
No tiro.
Na mudança da língua.
Mas a história permanece.
O poema continua para sempre.

Para sempre.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

À poesia


O mundo são palavras.
Elas saltam
e as capturo.
Ponho-nas ao papel.
Pinto em versos
o que me lagrimeja
ou me ri.
O mundo são palavras
que se abrem para mim.
O mundo desabrocha
à poesia.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O trabalho dignifica o homem?

Se o trabalho dignifica o homem,
por onde ele anda?
domina
escraviza
apaga
substitui
amansa
domestica
verdadetiza
Prazeres trocados.
Quem é?
. . .
Quem tem?
Muito.
Lâmpadas pelas estrelas
Conversa pelo Iphone
Onze meses por um.
Conhecimento por diplomas.

Se o trabalho dignifica o homem,
por onde ela anda?
dormir, acordar, café, banho, escovar os dentes, chave, porta, rua, ônibus, suor, metrô, horário, sentar, relatório, café, digitar, distrair, digitar, almoço, sono, digitar, café, fingir, alívio, metrô suor, ônibus, rua, porta, chave, jantar, banho, novela, dormir. 
dormir, acordar, café, banho, escovar os dentes, chave, porta, rua, ônibus, suor, metrô, horário, sentar, relatório, café, digitar, distrair, digitar, almoço, sono, digitar, café, fingir, alívio, metrô suor, ônibus, rua, porta, chave, jantar, banho, novela, dormir.
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Se o trabalho dignifica o homem,
por onde você anda?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Tem dias que a solidão pesa
e senta ao seu lado para conversar.
Vai lembrando os vazios da vida
e o quanto você não está.
Não está junto.
Não é par,
não é plural;
a solidão te lembra
que você é ímpar no singular